Fernanda, Dora e ... Tânia

As mulheres definiram o imaginário e a realidade do Brasil nesta semana de 14 a 21 de março. A dupla Fernanda e Dora, atriz e personagem do filme Central do Brasil, foram alçadas pela mídia a assunto único, crescendo em ocupação de espaço conforme se aproxima a noite do Oscar, no domingo. A população brasileira foi, em grande parte, apresentada à Fernanda. Para o povão, aquela senhora era conhecida apenas por sua participação em novelas, a última vez como a Zazá da novela das sete. Infelizmente, a nação não conhece outros trabalhos seus no cinema, como A Falecida e Eles Não Usam Black Tie. Menos ainda, tiveram a oportunidade de assisti-la em Dona Doida, onde Fernanda sozinha, num cenário mínimo, nos conduz a momentos de maravilhosa emoção, declamando a poesia de Adélia Prado. É natural que a grandeza de Fernanda seja difícil de perceber pelo brasileiro que corre atrás da vida nas Centrais do Brasil. Falta casa decente, comida, educação, trabalho. Talvez, a falta de teatro não seja o maior dos males que brutaliza e incute a violência nas Doras que compõem nosso povo. A Dora do filme arranca do fundo de si força para reencontrar o sentimento. A brasileira do roteiro de Central consegue resgatar sua humanidade. Nos fica a esperança.

E Tânia? Ela não faz parte da história de Central. De onde vem esta moça? Tânia de Paula é ex-assessora e namorada de um vereador de SP que controlava a máfia dos fiscais. O caso é uma sujeira só. Um esquema organizado de propinas que tira dinheiro até dos vendedores ambulantes. Mas Tânia teve seu momento de ingenuidade. Depois de presa, no depoimento mostrado pela TV, ela diz: "Eu gostaria de negar tudo, mas não posso. Fui pega em flagrante. Não posso dizer que eu não fazia isso tudo." O que destaca Tânia da canalhice geral é sua ingenuidade, sua civilizada impressão de que existe um limite para o ladrão. Acha que estava errada e foi descoberta. Pobre Tânia. Num país de ladrões profissionais, onde estes limites já foram tão alargados e pisados, por políticos e poderosos em geral, onde não se distingue mais a fronteira da ilegalidade, Tânia chega a beira da honestidade. Ela vê a diferença. Ela acha que há o certo e o errado. Tânia é o ícone da semana. Ela trouxe para a classe dominante esse exemplo ou, ao menos, a dúvida: Talvez exista a culpa.

-Tirésias da Silva-


mais brasil

Início da página | página principal

21março1999
Copyright © [Polemikos]. Todos os direitos reservados.