A boa e a má irreverência 

  Pegue-se um país com grandes restrições culturais, onde o direito do cidadão mal saiu da fase do "você sabe com quem está falando?". Nesse país socialmente debilitado pela herança de colônia de economia extrativista, de casas grandes e senzalas, de latifúndios, da elite dilapidadora das riquezas nacionais (parece até fala do Brizola!), pois nesse país se instala a versão globalizada da lei do Gerson: "Quero levar vantagem em tudo!". Depois de um processo de lobotomização do povo, que culminou com o advento do programa Big Brother, os jovens hoje não discutem mais se o socialismo é viável ou não? Se o capital é o instrumento da dominação entre as nações? Ou, pelo menos, se o dinheiro traz a felicidade? Agora, o dinheiro é a felicidade! O que rola nas rodas de conversa dos jovens sarados é como dar um golpe milionário que permita comprar logo seu Audi A3. Para os mais competentes, arrebatar também uma casa em Angra.

Os sintomas pipocam aqui e ali. Os episódios parecem isolados, mas fazem parte da cultura "Pra mim, tudo. O resto que se foda." Nas academias, onde os corpos processam anabolizantes e produzem serotoninas, as filas para usar os aparelhos são freqüentemente desrespeitadas por ginastas que não podem esperar. Afinal, por que esperar alguém só porque ele chegou na frente? Ora, dane-se! Chegar antes é um incômodo produzido pelo otário que se interpõe entre o sujeito e seu objetivo imediato. Os manuais de auto-ajuda da competição desenfreada dizem: "vencer na vida é saber furar a fila!" Um dos filósofos da família Gracie já disse que não suporta entrar em fila,  vai logo passando a frente. Quem quiser reclamar, que venha discutir fisicamente com ele. O abuso do direito individual agora é feito às claras. A disputa pela fila, no ambiente de contato pessoal de uma academia, é a nova versão corpo a corpo da violência perpetrada pelo motorista que fura o sinal ou ultrapassa na estrada pelo acostamento. Os deformados morais perdem o resto do pudor que ainda lhes ruborizava a bochecha. Que sobreviva o mais forte. O mais bem armado. O que possuir o cachorro maior que vai cagar sua calçada e se estiver de mal humor, morderá sua bunda.

Esses idiotas emergentes, quando querem brincar de cidadãos, tiram férias em Miami, onde podem babar e elogiar o desenvolvimento do povo americano. A ignorância é tanta que nem percebem que Miami já não é mais EUA. É uma versão da Barra da Tijuca onde se fala espanhol. Os idiotas mais cretinos explicarão nossa barbárie, chamando-a de irreverência, de jeitinho. Foi o mesmo jeitinho que permitiu a um tal juiz Mazloum diminuir a pena do megaladrão Nicolau dizendo que ele sofreu muito ao servir de chacota em programas de televisão. Ainda bem. Eu morro de pena do filho da puta que usou meu dinheiro para comprar carros e apartamentos de luxo. Com o refresco que o colega Mazloum lhe deu, o juiz Lalau, que roubou R$ 260 milhões das obras do Fórum Trabalhista, poderá estar solto em três anos. Isto sim é que é incentivo ao banditismo! A conclusão que se pode tirar dos fatos é que errado é roubar pouco. Se você roubar uma galinha da casa do vizinho pode ir para cadeia e ser seviciado (o vulgo diz enrabado) na cela pelos residentes permanentes. Logo, o negócio é barbarizar. Por exemplo, se você amealhou 200 milhões de dólares em propinas de obras e escondeu num paraíso fiscal como a Ilha de Jersey, tem todo o direito a se candidatar a governador de São Paulo.

Neste domingo, entretanto, nossa raça se lavou. Do poço de ladroagem que é nosso futebol, veio a redenção. O Brasil brilhou na conquista da Copa do Mundo. Assistimos, esgotados depois do esforço despendido (ficar torcendo é uma tortura para os hipertensos) e da adrenalina liberada pela explosão dos gols de Ronaldo, o capitão Cafu subir num pedestal de acrílico para erguer, vitorioso, a taça da Copa. Lá estava um brasileiro desarrumando as regras (e logo na terra japonesa dos rituais) e usando sua irreverência para saborear a conquista definitiva no esporte mais popular do planeta. Bela irreverência. A displicência dos melhores. A arrogância tolerável do número um. Naquele momento, o Brasil, grande colecionador de fracassos, atingia pequena grande glória. Nossas vidas, nessa segunda-feira, vão estar exatamente como estavam na sexta-feira. Ou pior, pois o dólar caminha firme para bater R$3,00. Continuaremos na média pobres, na média ignorantes, na média mal educados. Pelo menos, a cada momento que esta realidade negativa nos atingir, de agora em diante poderemos responder altivos: Mas somos penta!

- Sebastião Agridoce -


 
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02julho2002
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