O CD
morreu, viva o MP3 !![]() Permiti que meu filho desse uma festa em casa. Como seus amigos estão na faixa de 20 anos, eu previa que ia haver algum barulho, muita dança, a meninada se agarrando na sala, enfim, bem melhor do que os jovens vagando pela cidade de madrugada protegidos por nossas competentes polícias. Mas a festa superou as expectativas. Talvez pela idade provecta, eu já não pudesse estimar o que quer dizer um grupo de jovens reunidos numa festa. Foi um tumulto! A turma, ou, talvez melhor, a turba, gritava, pulava, batiam os pés, uma profusão de expressões da vitalidade desnorteada dos jovem. De tempos em tempos, todos urravam em uníssono, para o prazer dos vizinhos que tentavam se fazer escutar no telefone pelo atendente da PM, a qual, desde cedo, tentavam chamar. Em vão. A festa foi até às quatro horas da manhã. A polícia chegou dez minutos depois. Fiquei todo o tempo recluso, em meu quarto, deitado, participando compulsoriamente do evento. Eu havia dado a autorização para a festa. Mesmo com a energia da juventude ignara explodindo na minha sala, me mantive firme, deixei as coisas rolarem. Que os vizinhos ou a polícia tentassem interromper a força da natureza! Apesar das portas que me separavam da sala, a balbúrdia chegava clara até minha cama. O som das músicas também. Algumas delas até boas. Por sinal, este é o propósito do artigo: o som da festa. A novidade que me surpreendeu - para mim que ainda lembro das festas movidas a LPs e fitas de rolo - é que a música foi gerada diretamente do computador. Até o moderno e já precocemente envelhecido CD foi descartado. A chave para esta nova ordem musical chama-se formato MP3, que é uma maneira de compactar a música digitalizada. Enquanto no formato do CD comum uma música consome cerca de 40Mb (tamanho do arquivo para guardar a música), no formato MP3 o tamanho é cerca de dez vezes menor, o que facilita sua transferência através da rede. Desse modo, a garotada pode fazer fácil e rapidamente o "download" (copiar para o próprio micro) das músicas. No formato MP3 a música perde um pouco de qualidade, mas é quase imperceptível. E, sem dúvida, é mais do que suficiente para produzir a agitação que fizeram lá em casa. A facilidade do acesso às músicas na rede é aumentada pela existência de sites especializados em oferecê-las para serem copiadas pelos internautas. Na verdade, as coisas já evoluíram. O programa Napster, por exemplo, permite que você libere seu computador para funcionar como arquivo de músicas, as quais serão compartilhadas com todos os outros usuários do programa pelo mundo a fora. Assim, a qualquer momento, você pode entrar no programa e encontrar centenas de sites onde ficam as músicas, tudo eficientemente catalogado, prontinhas para você trazer para seu micro. Também existem vários programas para copiar as músicas do formato de CD para o MP3. Daí para a música circular de graça na rede é um passo. Dá para imaginar como a garotada está se esbaldando com isso. O acesso fácil a esta nova tecnologia permite que muitos artistas que não conseguiam furar o controle do mercado pelas gravadoras possam, agora, chegar ao público. Não deixa de ser um avanço democrático propiciado pela tecnologia. É claro que esta promiscuidade musical gera reações dos conservadores. Músicos idosos como a musculosa velhinha Madonna estão irritadíssimos por que vêem suas músicas correndo de um lado para outro na rede e não vêem o dinheiro correndo para suas contas bancárias. A indústria de discos está se debatendo para encontrar maneiras de impedir a disseminação gratuita de música na rede. Parece que não será fácil. É provável que este mercado paralelo de música circulando de graça e roubando dólares das gravadoras permaneça. Isso, na verdade, já existe hoje: o mercado pirata de fitas e CDs já é cerca de 30% do total comercializado. A combinação MP3 e Internet, além de botar lenha nessa fogueira, vai aumentar a discussão sobre o direito autoral e sobre quanto a indústria ganha controlando o acesso às obras musicais. O fenômeno MP3 deve facilitar o contato entre autor e público. Isso vai diminuir a importância da intermediação das gravadoras e, consequentemente, seu lucro. É briga de cachorro grande. Enquanto isso, coloquem seus headfones e escolham o querem ouvir. É grátis! - Carlos Ordina - |
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