Pode-se dizer tudo do ex-banqueiro Vorcaro, mas não se pode negar que ele entendia muito de corrupção. Tem uma palestra dele no MIT, nos EUA, onde o corruptor master diz candidamente que o mais importante nos negócios são os contatos. Não há dúvida. Se o objetivo é corromper, escolher os atores dos esquemas é a grande arte.
Vorcaro sintetizou a figura do corruptor, aperfeiçoou o sistema e o implantou com maestria em escala jamais vista em nosso país. E olha que somos craques nessa área.
Tem muitas atividades que precisam do suporte da corrupção para se manter. o caso típico é o negócio ruimque precisa de favores dos poderosos para se manter. Pode ser tráfico de drogas, milícias, contrabando em geral. Mas estas são atividades insalubres. Sua operação exige trabalho duro, prática da violência, tratar com a raia miúda. O rendimento é alto, mas é desagradável. Por que suar e correr riscos? O mercado financeiro é mais charmoso. Muito ar condicionado, ternos bem cortados, bons vinhos.
Se o objetivo é obter dinheiro, boa opção é o clássico modelo de pirâmide (ou correntes). Numa corrente, vende-se algo sem valor com previsões de ganhos acima do normal do mercado, que aguça o olho do ganancioso. Depois, o sistema da corrente propaga o golpe com os novos entrantes que compram o vapor por preços maiores, dando lucro para quem entrou no começo do esquema. Daniel Vorcaro fez “by the book”. Partiu da compra de um pequeno banco falido. O banqueiro não foi modesto. O golpe do Vorcaro pode ser resumido em criar dez bilhões de reais em papéis sem valor e colocar esses papéis no mercado prometendo pagar 140% do CDI. Os investidores gananciosos, intermediados por bancos como Nubank e XP, e protegidos pelo Fundo Garantidor de Crédito, fizeram o golpe rodar. Não só o olho grande funcionou. O braço político azeitado pela corrupção teve papel importante. O governo do Estado do Rio de Janeiro, do governador Cláudio Castro, do PL, aliás patrocinado pelo clã Bolsonaro, cometeu a violência de colocar 900 milhões de reais do fundo de previdência do estado nos papéis podres de Vorcaro.
A esperteza de Vorcaro foi saber usar essa dezena de bilhões de reais para comprar todo mundo que estivesse disposto a se vender. Tanto dinheiro é como um fundo praticamente ilimitado para colocar em corrupção. Foi o que o “irmão pra toda vida” Vorcaro fez. Diligentemente, buscou suporte para que seu esquema não quebrasse. Comprou proteção na política, na imprensa, no judiciário, ou qualquer área onde ele pudesse “lubrificar” a opinião e o apoio a seu favor. Vorcaro calibrou a alocação do dinheiro conforme a importância do agente a ser corrompido. Seu contrato de R$130 milhões com o escritório da esposa de Alexandre de Morais é imoral. Como bons advogados, o casal poderá afirmar sem ruborizar que foi legítimo. Não se sabe de outro contrato no país nesse montante, sem uma causa definida a ser trabalhada. Outro juiz do STF, o ministro Kassio Nunes Marques, através do escritório do filho, tinha um contrato de serviços advocatícios de R$400 milhões com Vorcaro. Pelo menos esse contrato tratava de processos envolvendo precatórios no valor de alguns bilhões de reais. Não justifica, mas explica.
Vorcaro foi corruptor de largo espectro. Distribuiu imóveis, como para o senador Jaques Wagner do PT, pai consciencioso, que repassou para sua filha. Kassio, apesar de seu discurso pela religião e família, foi agraciado com festas, digo, surubas, com cinco moças de uma vez. O ministro se mostrou poderoso na atividade. A família Bolsonaro foi premiada com R$130 milhões com carimbo de serem destinados ao filme sobre Bolsonaro. A família e, em particular, o candidato Flávio Bolsonaro nunca se preocuparam em explicar direitinho onde foi parar toda essa grana. É fato que o senador e candidato à presidência da república foi à casa do banqueiro (que já usava tornozeleira e seria preso no dia seguinte) para negociar os termos do contrato. Eu queria ser uma mosquinha para saber como foi essa conversa.
Vorcaro trabalhou bem. Suas festas foram as melhores do mundo. As melhores bebidas, as melhores mulheres, os melhores artistas. Com a fonte inesgotável de dinheiro, esse era o único caminho para manter sua corrente funcionando. O objetivo era vender o Banco Master para o banco público BRB, passando o buraco para ser distribuído para o povo. Por pouco não deu certo. Bem que o governador do DF, Ibaneis Rocha se esforçou para concretizar o negócio. Deu azar.
Como ficaram as coisas? Vorcaro não abriu a boca de todo. Ficou nas idas e vindas das delações premiadas. Ele está ganhando tempo para ver como ficará o país depois das eleições de outubro de 2026. Tem muita gente comprometida com a corrupção de Vorcaro em todas instituições do país. Em todos os níveis. Não deve dar em nada. Vai ser a maior pizza já vista. Se Flávio ganhar, sendo ele um dos envolvidos com Vorcaro, vai ser interessante ver a acomodação geral. Impunidade geral. E poderemos enfim relaxar e esperar o próximo escândalo nacional.