Em 1957, quando computadores ainda eram dinossauros cheios de válvulas, ocupando salas inteiras, o escritor de ficção científica Isaac Asimov escreveu um conto simplesmente premonitório: “Sensação de Poder”. A história passada no futuro descreve quando um técnico descobre (redescobre?) como fazer as contas com lápis e papel. Ele vai fazer uma apresentação de sua descoberta para seus superiores. Ninguém mais sabia que três vezes sete dava vinte e um. Sim, porque no futuro as pessoas teriam sempre à mão um computador pequeno onde poderiam fazer as contas. Haviam esquecido como fazer as operações matemáticas mais simples. As pessoas seriam totalmente dependentes de pequenos computadores que mostravam os resultados de qualquer conta que quisessem fazer. Já sacou onde quero chegar? Muita gente hoje acredita que a IA vai ser tão comum e onipresente como a eletricidade. Ninguém precisará resolver um problema, decidir a melhor opção a seguir. Qualquer pessoa poderá pedir à IA para dizer como fazer ou, mesmo, fazer por ela.
Acredito que Asimov pensava nos computadores como máquinas para fazer cálculos. Substituir as réguas de cálculo já seria uma benção para os engenheiros da época. Foi uma grande sacada imaginar que as pessoas teriam pequenos computadores nos bolsos. A primeira máquina eletrônica só foi construída em 1946 e ocupava uma sala inteira. As primeiras estimativas previam que o mundo só precisaria de algumas dezenas de computadores. O primeiro computador para uso comercial foi o IBM650, de 1954. Asimov mostra sua criatividade ao antecipar a importância futura dos computadores.
O conto é um primor de apresentação. É engraçado o técnico dizendo que já dominava bem as multiplicações e estava orgulhoso de conseguir fazer operações de divisão com várias casas decimais, que era muito mais complexo. Suas pesquisas mostravam que no futuro daria para calcular raízes quadradas e, mesmo, cúbicas.
O final do conto é otimista e pessimista. A grande descoberta do conhecimento perdido é tratada como um “gigantesco avanço” para a humanidade. Infelizmente, a destinação daquele conhecimento é imediatamente direcionada para melhorar a tecnologia das armas.
Mesmo para as novas gerações habituadas aos textos curtos do tuítes, vale ler o conto. É pequeno, não vai exigir muito dos cérebros preguiçosos dos dias de hoje. Não vou passar o link. Basta você usar seu app preferido de IA para encontrar o conto. Para quê ter trabalho?