Com a gigantesca quantidade de informação que temos acesso hoje, prenhes de fakenews, está cada vez mais difícil descortinar pelo menos um pouco do que seja de verdade. Já nem sei se existe essa preciosidade: a realidade.
Assisti parte do discurso do Estado da União do presidente dos EUA (23/02/2026). Foi maçante, parei depois de meia hora. A transcrição e matérias na imprensa sobre o discurso apontam a quantidade de equívocos (sou gentil) e ufanismo exagerado (talvez um pleonasmo). Me veio o sentimento de que atualmente este estilo está se tornando comum na comunicação. Fala-se qualquer coisa. Defende-se qualquer ponto de vista. Qualquer tese, por mais estapafúrdia que seja. Ficou evidente que as pessoas acreditam em qualquer coisa, mais ainda, se for uma realidade conveniente, mesmo que mentirosa. Tem nome bonito: viés de confirmação. O mecanismo de manipulação em massa funciona assim: você mente hoje, fatura com a mentira, amanhã fica claro que era falso. Você candidamente esquece que falou. Desconversa. Parte para outra mentira.
O livro Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, é de 1932! Vejam só suas avaliações de um governo autoritário no futuro:
- a propaganda do estado não tem compromisso com a realidade. A versão apresentada serve apenas para reforçar os valores do governo reinante. Será que remete a: “a inflação está a menor de todos os tempos. A gasolina está bem abaixo de US$2 o galão”.
- o passado é desacreditado. O governo anterior sempre era o caos, o inferno. A versão apresentada do passado serve apenas para mostrar a perfeição do governo atual. Será que remete a: “o governo Biden foi o pior de todos os tempos”
- a narrativa histórica é alterada conforme o interesse político. Um político tratado como pária numa semana é apresentado como muito simpático na outra. Será que remete a: “Lula era o presidente comunista que deveria soltar imediatamente Bolsonaro. Um mês depois era o amigo muito simpático com o qual tem uma química.”
- o governo usa slogans para reforçar hipnoticamente o pensamento simplista. Será que remete a: “Make America Great Again”.
Se você não tem escrúpulos. Se deseja vencer na política. Segue a recomendação maquiavélica (maldade com Maquiavel, ele apenas pregava o bom senso pragmático): minta. Se for pego na mentira, minta de novo. Vá dobrando a aposta.