Assunto delicado. Qualquer comentário que não reforce a oposição a esse tipo de crime pode indicar tolerância por parte do autor, que será execrado, torturado (crime hediondo) e jogado na lata de lixo das redes sociais. Mas, vamos lá, o título do site direciona mesmo para riscos e polêmicas.
Comecemos com uma informação: “No Brasil, a mortalidade por causas violentas é significativamente maior entre homens, com taxas até 3,7 vezes superiores às femininas, predominando em jovens de 20 a 24 anos. Homens são frequentemente vítimas de armas de fogo em via pública, enquanto mulheres enfrentam altos índices de feminicídio em casa, frequentemente por parceiros.” (Biblioteca Virtual em Saúde). Homens atuam em atividades mais perigosas. Vemos poucas mulheres trabalhando para o tráfico ou as milícias, que são atividades de alto risco. As mulheres ainda têm muito da vida ligada ao domicílio. Curiosamente, a casa onde moram e as protege da violência das ruas é uma armadilha, é o lugar onde mais acontece o feminicídio.
A loucura de nossa sociedade vai mais longe. O ciúme ou a não aceitação da separação são o grande motivo dos feminicídios. Levantamento citado pelo Portal O Globo aponta que 60% das vítimas de feminicídio no Distrito Federal em 2022 foram mortas por ciúmes ou separação. Essa estatística deve se reproduzir por todo o país. A importância dessa informação é mostrar que o É comum os casos serem facilmente resolvidos, o criminoso ser preso rapidamente ou, mesmo, em flagrante. Isso mostra que a doença social que conduz ao feminicídio é mais profunda. Aquilo que leva os homens a justificarem a morte da parceira, ou daquela que ele queria como parceira, é tão forte que supera a autopreservação. Ele destrói sua vida juntamente com a da mulher que lhe desperta emoções como desejo, posse ou ciúme. O feminicídio é sintoma de distorção maior que transforma em tragédia as vidas de homens e mulheres. É uma doença social que está enraizada no machismo de nossa sociedade patriarcal. É ensinado ao menino, desde cedo, que ele não deve chorar, deve competir com os outros homens (ser o líder da matilha?), deve desenvolver seu poder e exercê-lo sobre as mulheres. Deve obter sexo pela força. O homem não pode abrir mão de sua “virilidade”. Não pode deixar que seus pares homens percebam “sua fraqueza”. Sua parceira decidir abandoná-lo? Nem pensar. Não pode permitir a mulher sair de sua vida sem tomar uma atitude.
A fragilidade masculina é tão grande que é analisada como fator decisivo nas definições de eleições em países como EUA e Brasil. É reconhecido nos EUA o ressentimento dos homens do interior do país por terem perdido seus empregos na área manufatureira, deixando de ser os machos mantenedores, enquanto assistem as mulheres disputarem empregos com eles, largando os trabalhos domésticos e escolhendo os caminhos de suas vidas. Esse ressentimento, sendo bem manipulado, funciona muito bem na política. Promessas de que os homens vão recuperar seu valor, sua “honra”, funcionam. Fizeram parte do discurso que elegeu o presidente Trump. Os homens vão ser grandes de novo! Por aqui, o discurso pela família, usando a força das igrejas evangélicas, com o viés para o formato conservador, homem e mulher, pressiona o pobre homem para cumprir esse papel dominador. Sofre todo mundo. Mas as mulheres morrem mais.
Antes de acabar, quero comentar outro assunto ligado à situação da mulher na sociedade: a pregação do “Não é não!”. É perfeito. Uma síntese do direito da mulher de recusar e explicitar que não deseja a continuação de um ato sexual. Meu entusiasmo com esse modelo simples e objetivo é que ele pode evitar discussões machistas tradicionais tais como: “ela se vestindo assim estava pedindo para acontecer alguma coisa”, “dançar desse jeito provocante”, “se arriscar nesse tipo de festa” e outros comentários que colocam a culpa na mulher. Interessante que ouço essas críticas ao comportamento feminino vindo da boca de mulheres. Se reforçarmos o mantra “não é não”, esses argumentos se perdem, restando apenas o ranço do preconceito de que a mulher deve ser recatada, retraída ou, então, trata-se de uma depravada em busca de ser estuprada.
Feliz Dia Internacional da Mulher!