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O Livro das Ilusões, de Paul Auster, 2002, Companhia das Letras

“Foi então que ele desapareceu. Exceto pela roupa que tinha no corpo e pelo dinheiro que levava na carteira, deixou tudo para trás…”
Foi o melhor livro que li em 2003. Paul Auster, famoso entre outras obras por Trilogia de Nova York – do qual, por sinal, não gosto tanto, pois achei excessivamente pretensioso – é o autor desse romance em que trabalha o paralelismo de histórias e vidas. O lado down de Auster se mantém, o livro também fala de perdas, mas com graça suficiente para ser leitura de fácil digestão. 

David Zimmer, o personagem principal do livro, é um professor cuja vida foi cortada pela perda da mulher e filho num acidente de avião. Tempos depois, uma cena de comédia do cinema mudo com o ator Hector Mann dispara uma centelha de curiosidade e retira David Zimmer da prostração causada pela perda da família. A vida de Zimmer se enreda na vida do ator. Hector Mann, outro personagem que pode ser apresentado como principal do livro, foi um ator do cinema mudo que desapareceu misteriosamente no auge da carreira. Auster nos apresenta Hector Mann através de seus filmes, descrevendo-os com riqueza de detalhes, proporcionando prazerosos exercícios de imaginar as cenas. Por sinal este é um dos vários jogos de planos em que o livro se apresenta: um livro descrevendo um filme cena a cena. Seus comentários sobre o cinema e a literatura são um prazer especial. Há um elogio de Auster ao cinema neste livro e Auster é do métier. Ele foi o autor do roteiro de Smoke, filme em que dividiu a direção com Wayne Wang e que virou cult. O livro de Auster literalmente mistura cinema e literatura. Sua estrutura de várias histórias que se superpõem ou se referenciam ficará muito bem num filme. 

A busca de Zimmer em descobrir o que aconteceu com o ator após sua aposentadoria precoce o leva a uma vida de aventuras, tanto as que ele experimenta quanto aquelas que ele ouve sobre como viveu Mann após desaparecer. Num dado momento da história, Auster abre como que um link e passa contar a vida de Hector Mann após o auto-exílio. Os reflexos das vidas de Mann e Zimmer. Várias histórias compõem as Ilusões. Algumas acontecem no nível dos filmes mudos, outras são vividas por David Zimmer, ou, ainda, são contadas a ele do período em que Mann vagou incógnito pelo país. Até a realidade contribui para reforçar a idéia. Paul Auster peregrinou muito pelo mundo antes de ser reconhecido. Personagens fortes, particularmente, as várias mulheres, aparecem e saem da história sem serem excessos ao equilíbrio da narrativa, pelo contrário, definem a forma de sonho que envolve o livro. A grande beleza do livro de Auster fica na montagem de estrutura de histórias em diferentes níveis, onde, todo o tempo, sentimos que existem pontos de contato, mesmo que estes não sejam óbvios. Mas esta mescla de roteiros é objetivo do autor, que nos explica na citação inicial a Chateaubriand: “O homem não tem uma única e mesma vida. Tem várias. Arranjadas de ponta a ponta. Daí sua infelicidade.”

Pilatos [Carlos Heitor Cony, 2001, Companhia das Letras]

Pilatos é um excelente e oportuno lançamento editorial. Este livro de Carlos Heitor Cony, de 1974, merece ser reapresentado aos leitores. Acima de tudo, Pilatos destaca uma qualidade magistral do escritor: seu humor. Os personagens e as situações delirantes que Cony cria para eles são de se dobrar de rir. E digo dobrar, literalmente. Continuar a lerPilatos [Carlos Heitor Cony, 2001, Companhia das Letras]