o jornalista errou, o ministro acertou

Gosto de Mário Prata. Ele escreve bem. Tem até um livro dele aqui na prateleira de Polemikos. Mas… nem todo dia a gente acerta. Aconteceu com Mário Prata. Ele, em sua coluna do Estadão, resolveu aproveitar o dia mundial contra o fumo para comentar sobre cigarros, proibições de fumar e a perseguição que os ex-fumantes fazem aos atuais-fumantes.

O texto de Mário Prata é uma peça de desinformação. Mário explica o recrudescimento do antitabagismo no Brasil como mais uma faceta da compulsória vocação do brasileiro para imitar o americano. Numa argumentação frágil, ele tenta enfraquecer e caricaturar a campanha contra o cigarro, comparando-a aos modismos americanos, como a preocupação com o mal causado pelo consumo de sal ou de comidas do McDonald’s. Esses argumentos facilmente conseguiriam o apoio financeiro da Souza Cruz. Mas claro que não é por aí. Provavelmente, foi apenas uma tolice escrita pelo cronista num momento de falta de inspiração. Prata mistura tudo: confunde a luta contra o cigarro com imitação dos EUA; sugere que não é importante se preocupar com as mortes que os cigarros causam pois “… em São Paulo a violência mata muito mais.”

Se ele tivesse se dedicado mais a brincar com a figura do ex-fumante, a crônica podia ficar engraçada. Este pessoal, realmente, depois que larga o vício, fica muito chato. Mas ele não consegue a almejada graça. No máximo, conseguiu a simpatia de outros fumantes perseguidos. Mário também tenta a estatística e sai-se com esta pérola de ignorância: “Dizem que 80% de câncer no pulmão é de fumante. Mas negam a informação que apenas 15% dos fumantes têm câncer no pulmão.” Será que Mário sabe o que representa o contingente de 15% dos fumantes? Não sabe. É muita gente Mário!

Talvez Mário Prata tenha escrito a matéria depois que alguém pediu pra ele jogar fumaça para o outro lado ou por estar com síndrome de abstinência depois que acabaram seus cigarros. Ele podia ser também um agente a soldo da indústria de cigarros. Mas claro que não é por aí!

***

Os políticos têm que aparecer. Precisam se manter na mídia para que a memória volátil dos possíveis eleitores não se esqueça de suas caras bondosas e bem intencionadas. O Ministro da Saúde José Serra é um especialista em ocupar jornais, criando notícias. Por exemplo, ele aparece quase que diariamente no JB em artigos de destaque, com direito a fotos. O ministro compete com FHC em exibição. É como se houvesse um acordo com o jornal para mantê-lo permanentemente em exposição. Bem, o ministro parece ter a proposta de “aparecer” como qualquer político, entretanto, diferentemente de qualquer um, ele também “faz” algumas coisas. Pode-se citar, por exemplo, o banco de órgãos para transplantes (este projeto é de seu antecessor, mas tocar um projeto iniciado por outro é mérito na administração pública brasileira), a lei para obrigatoriedade da fabricação de remédios genéricos e … tã tã tã tãã: a proposta de lei para proibir a propaganda de cigarros! Pois é, o ministro patrocinou lei para impedir a veiculação daqueles anúncios belíssimos que informam que, se não fumar Hollywood, você está pouco mais vivo e atual do que um dinossauro. Os velhos podem não se abalar muito por que já estão velhos mesmo, mas os jovens são extremamente sensíveis ao apelo desses anúncios. E se alguém começa a fumar antes dos 18 anos, as chances de abandonar o vício depois são bem pequenas. Com isso, se perpetua a indústria do cigarro. Então, pelo menos, acabar com a propaganda é uma forma de interromper o ciclo de geração de novos viciados.

É por isso que, apesar da munha preconceituosa e radical oposição a FHC, sou obrigado a dizer que o ministro Serra, mesmo levando umas “ovadas”, acertou em reparar a omissão governamental em relação a essa droga que causa mais danos do que todas as outras juntas. Enfim, o governo decide abrir mão dos bilhões dos impostos sobre o cigarro e pensar um pouco na saúde da população. Impedir a propaganda não é muito, mas é um começo. Por incrível que pareça: parabéns ao ministro Serra!

– Ernesto Friedman –

Um comentário em “o jornalista errou, o ministro acertou”

  1. recebemos por e-mail:

    Mário Prata é corajoso. Resolveu falar em público dos fundamentalistas que vivem perseguindo quem fuma. Essa gente deveria andar gastando tinta com coisas mais interessantes. Que tal levantarem a bandeira radicalmente contra a fome, a violência, etc? Ora, é mais fácil perseguir quem fuma! Típico de gente que não tem ideal e elege um alvo fácil para protestar.

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