Operação Carne Fraca: justiça ou publicidade?

Há muito que sei que o controle da carne no Brasil é uma zona. (Vale dizer que não sei no momento qual instituição brasileira não é uma zona.) A bola da vez é a produção de carne no país. Uma operação da Polícia Federal desbaratou esquemas de uso de comida estragada, gado e frango doentes e outras práticas repugnantes da produção de carne e embutidos. Até que enfim.

Das histórias que ouvia da indústria, eu gostava daquela que falava da produção das salchichas. Uma pessoa da área contava que a máquina processa tudo em alta temperatura, transforma tudo na pasta da salchicha. Dá pra usar qualquer insumo. Pode ser papelão ou gado doente. O resultado final é o mesmo: salchicha.

E tem o controle do gado. Soube de um sujeito, que era de boa família, do bem, e era fiscal de frigorífico. A coisa não estava andando direito. Ele começou a interditar a produção. Os empresários não gostaram da postura rigorosa do fiscal. Pressionaram o órgão responsável. Solução: transferiram o técnico para fiscalizar a carne de exportação. Para esse consumidor, havia necessidade de garantir a qualidade do produto. Já para a carne que iríamos comer aqui…

Há um ponto que me preocupa nessa história. Carne Fraca não é Lava Jato. A divulgação dos problemas da qualidade da produção da indústria da carne, do jeito que foi feita, afeta uma indústria da qual o Brasil é responsável por 7% da produção mundial. A pecha de “vendedor de carne podre” derruba vendas que renderam 12 bilhões de dólares em exportações em 2016.

Minha cautelosa dúvida é saber se esta operação deveria ser feita com mais sigilo, com divulgação moderada, esclarecendo se é um problema geral ou se são bolsões de gestão criminosa? A PF levou em conta a importância econômica do setor ou se preocupou apenas em dar o máximo de publicidade à operação? Afinal, sair na mídia é bacana. Uma operação espetaculosa traz a luz dos refletores para os delegados. Também lança dúvida entre os importadores sobre à qualidade do produto brasileiro. E as vendas caem. E os competidores ocupam nosso espaço no mercado internacional. E lá se vão os empregos. Tem alguém aí preocupado com os empregos?

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