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Escrita Aleatória

É maneira de passar o tempo. O equivalente escrito de ler mecanicamente sem prestar atenção no sentido do texto. As palavras vão surgindo, se alinhando nas frases como jorro irresponsável. Até pode acontecer de algo valer a pena. Algum senso ou falta dele que mereça uma reflexão. A procura das palavras certas é sofrida. Elas aparecem, ou esbarram na busca por um fio de prosa, como pessoas apressadas na calçada da avenida. Levo cotoveladas de significados promissores que se esvaem assim que digito suas letras. Se pelo menos essa prática fosse eficiente em trazer o sono. Longe disso. Quanto mais disparatada vai ficando a monótona ladainha (há ladainha animada?) que vou criando, mais desperto fica o incauto pretendente a produzir um escrito. Vontade mesmo é de fechar o editor de texto e render-se ao prazer solitário de um joguinho do computador. Ficar ali mesmerizado (gosto dessa palavra, não consigo resistir a inseri-la aqui), olhos acompanhando os dedos nas perfeitas imagens inventadas do passatempo digital. A esperança. Há um traço de otimismo que acredita na produção da qualidade. Algo como uma alquimia literária que gere o texto precioso pela infinita repetição do ato de enfileirar letras. Acredita-se em tanta coisa. Por que não?

Capitão Phillips [Captain Phillips] Paul Greengrass

Bom filme de tensão. A pirataria na costa da África existe. É apresentada de maneira convincente. Tom Hanks tem desempenho adequado para a situação limite enfrentada pelo capitão do navio. Espetacular é o ator Barkhad Abdi, nascido na Somália, de família que emigrou para os EUA fugindo da guerra civil. Barkhad interpreta o líder dos sequestradores, Muse. Ele parece absolutamente possuído pelo personagem. Boa parte da tensão, maior qualidade do filme, se deve a sua interpretação.

A atuação dos SEALS, tropa de elite da marinha americana, cumpre o papel de reforçar a competência militar americana para ações anti-terrorismo. Os EUA precisam desse estímulo hoje em dia.

Atenção para a interpretação de Tom Hanks no final do filme, coroando as situações críticas por que passou o atribulado capitão Phillips.

Você pode sentir amor e desejo pela mesma pessoa?

Ester Perel discute o assunto em seu post, publicado pelo HuntPost. Ela começa apresentando instigantes questões. Passo essas inquietações a vocês:

– Por que o bom sexo sempre acaba, mesmo em casais que se amam tanto quanto antes?

– Por que a intimidade não garante um bom sexo?

– Podemos querer aquilo que já temos?

– Por que a transição para a paternidade/maternidade traz a queda do erotismo no casal?

– E por que o proibido é tão erótico?

– Quando você ama, como você se sente, e quando você deseja, como isso é diferente?

Boas perguntas!

O mais intrigante problema de probabilidade

Há 30 anos atrás, eu trabalhava com um grupo cujos participantes tinham muito boa formação em matemática e estatística. Certo dia apareceu um problema aparentemente fácil, mas que tinha uma casca de banana que gerava dúvida sobre sua solução.

Vejamos o tal problema. Nós o chamávamos de o “Problema do Silvio Santos”. Isso por que SS tinha um quadro em seu programa de domingo em que eram oferecida portas para os concorrentes escolherem. Acho que eram as Portas da Fortuna. Escolhendo a porta certa o participante do programa ganhava um prêmio. Usemos o jogo oferecido por Silvio para apresentar o curioso problema.

Considere que as Portas da Fortuna são três. Atrás de uma delas há um prêmio de valor, por exemplo, 10 mil reais. As outras portas, se escolhidas, dão direito a prêmios de consolação ou, simplesmente, o concorrente não ganha nada. Silvio pede ao concorrente para escolher uma das portas. Elas são todas iguais e só a sorte pode fazer com que seja escolhida a porta que leva ao prêmio. O participante escolhe uma porta. É aí que a coisa fica animada. As portas continuam fechadas. O apresentador sabe qual é a porta que esconde o prêmio. Ele abre uma porta das duas que não foram escolhidas pelo jogador. Como sabe onde está o prêmio, Silvio escolhe para abrir uma porta que não ganha o prêmio. Se o concorrente escolheu a porta certa na primeira escolha, Silvio tem duas portas vazias para abrir. Se o concorrente não escolheu a porta da sorte, o apresentador abre aquela das duas restantes que não conduz a ganhar os desejados 10 mil reais. Depois de abrir a porta vazia, Silvio oferece ao concorrente uma segunda jogada. Ele pode continuar com sua escolha inicial ou trocar para a outra porta que permanece fechada. Notem que o apresentador sempre seguirá o procedimento de abrir uma porta vazia e oferecer ao participante do programa a oportunidade de trocar sua primeira escolha, mesmo que a primeira escolha do concorrente tenha sido a da porta que ganha o prêmio.

Qual o problema então? Sabemos que a chance de acertar a porta na primeira escolha é de 1/3. Depois que o condutor do programa abre uma porta vazia, restam duas portas fechadas, aquela escolhida primeiro e a outra que o apresentador oferece para o candidato mudar sua escolha. Entre as duas portas restantes, a chance de acertar é aparentemente 50%. Pergunta: o concorrente aceitar trocar sua escolha original e indicar a porta que restou fechada aumenta suas chances de ganhar o prêmio?

A resposta é “Sim. Trocar para a outra porta aumenta bastante a chance de escolher a porta que esconde o prêmio.” Qual a probalidade de acertar a porta do prêmio se o concorrente trocar de portas? Deixo a vocês o cálculo da probalidade de acertar.

Vejam que interessante. Se Silvio Santos quisesse criar suspense e fizesse esse jogo com, digamos, dez portas no lugar de apenas três? Nesse jogo ampliado, o apresentador deve adotar a regra de sempre oferecer uma porta vazia para as jogadas em que o concorrente pode trocar sua escolha. Se o concorrente nao troca, ele abre a porta e mostra que ela está vazia. O concorrente esperto que não aceitar trocar sua escolha original o final do processo quando Silvio abre uma última porta vazia e só restam duas portas fechadas. Nessa jogada, o participante do programa deve aceitar trocar sua escolha inicial pela porta que restou fechada. Se o jogo for jogado assim pelo nosso ideal Silvio Santos e pelo imaginário competidor, as chances dele ganhar o prêmio será de 90%. Ou seja, assim seria fácil ganhar R$10 mil.

Este problema é apresentado no livro o Andar do Bêbado, de Leonardo Mlodinow, com mais elegância do que eu o fiz. Vi recentemente, num artigo na internet, comentarem sobre o problema. Também me empolguei em registrá-lo.

A Praga das Olimpíadas

Assistimos todo dia este Brasil desordenado e continuamos a nos perguntar como vai ser a realização das Olimpíadas por aqui. Um artigo do site The Daily Beast (thedaiybeast.com) traz más notícias para quem acredita que o Rio vai ganhar com a realização dos jogos em nossa cidade. Os dados compilados por estudiosos do assunto mostram que não se comprova o famoso argumento de que os turistas vão correr para a cidade que realiza uma edição dos jogos olímpicos modernos. Os orçamentos estouram. Populações pobres são deslocadas. O evento ocorre. Alguns poucos ganham muito dinheiro e a cidade sede fica com as dívidas para administrar. Montreal foi o maior fracasso. Seu orçamento atingiu oito vezes o previsto. Outras cidades não chegaram a tanto. Mas os custos altos são a rotina nesses megaprojetos. Notem que não falam de corrupção, obras superfaturadas ou preços majorados pelo golpe do atraso das obras. Claro que o Rio não é esse caso.

O interessante do artigo é a argumentação realista de que os custos de uma Olimpíada não se pagam. Depois do evento, linhas de trem e metrô ficam subtilizadas. Estádios caríssimos são abandonados. Um idealista sugeriu que uma ilha da Grécia fosse selecionada para abrigar os Jogos permanentemente. A idéia é excelente, entretanto a sugestão não incluiu a maneira dos espertos enriquecerem com os orçamentos. Resultado: a Ilha das Olimpíadas foi esquecida.

A sina das Olimpíadas é forte e tem acontecido com regularidade de quatro em quatro anos. As cidades sofrem com obras por anos que antecedem os Jogos. Áreas de população pobres são remanejados sob o discurso da revitalização. Os empreendedores ligados ao projeto olímpico enriquecem. Por alguns dias a cidade sede assiste o brilho da competição. Depois, ela é esquecida, cai na rotina, e ficam as dívidas para serem pagas pelos anos a frente.

É claro que no Rio de Janeiro isso não vai acontecer.